DO AMANTE INVISÍVEL

Com que fios, Senhor, sua ausência vou bordar, na tela da tristeza do vento a oscilar?
No coração retenho canções do muito amar, novelos doloridos da infância a segurar.
Do roxo mais tristonho estou a me lembrar,
das tardes do abandono do sol a se ocultar.

Sem pai eu me sentia a orfã sem amor
e o coração doía na seta do amargor.
Que mundo se fazia no escuro entardecer,
que dor em mim ardia além do compreender?

As lágrimas rolavam naquela escuridão
e o escuro iluminavam de prata e solidão.
Com fios tecendo a rosa deste amor,
a dor eu vou sofrendo em busca de fervor.

Se o Amado descontente afasta sua mão,
se a cor se faz ausente, se cabe-me a Aflição,
a rosa do invisível, a lágrima a rolar
em rendas de brancura porei no Teu altar.

Dora Ferreira da Silva - Andanças